CAPÍTULO 1
Quando comecei a navegar essas águas de analisar imóveis, surgiu uma sensação curiosa para mim: ao meu redor, todos pareciam estar navegando em uma baía fechada, em círculos, ou completamente cegos, muitos guiados por instinto, e muitos sem ir além do “eu quero, mamãe, eu quero”. Não havia método, não havia parâmetro, critério. A diferença deste desencontro de fantasias parecia deixar bem cheia a barriga do corretor.
Tentei traduzir meu conhecimento de análise de empresas para algo bastante específico, algo bem duvidoso quando pensado como investimento neste universo dos investimentos, principalmente quando falamos BR: isto é, casas, não prédios, não salas, não lojas, apartamentos ou qualquer coisa onde terreno e obra não fossem reis, e onde não houvesse renda alguma, ou seja, casas.
O negócio de casas, não se enganem (os melhores corretores são bem claros quanto a isso), não tem nada a ver com o aluguel que se pode tirar delas. Em muitos casos, aluguel é uma medalha de participação por ter seu dinheiro num caixão. Casa é uma única coisa: patrimônio.
A maioria das pessoas segue um caminho simplificado neste meio, que muitas vezes é absolutamente sólido, ou procura entender como pode, por comparação, perguntando aqui e ali. Há sempre aquela outra casa vendida por este ou outro preço. Mas como definir o preço justo, como ver as oportunidades sem medo e como não pular de cabeça em uma bolha?
Muita gente não vê numa casa um investimento de verdade, e isso pode até ter fundamento, por isso os erros são mais perdoáveis e os acertos parecem maiores do que realmente são. Ganhar 8% em um ano contra um DI líquido de 11% não é bem uma vitória. Enfim, não é investimento, mas, se é só brincadeira, o que justificaria o mercado organizado que temos?
E mais importante, o que está por trás disso? Para mim, vindo daqui, do fórum, continuavam aqueles vetores: taxa livre de risco do tesouro americano, CDS, prêmio de mercado, capitalização de empresas de homebuilding, beta desalavancado, enfim. Você joga no caldeirão do mundo inteiro e as coisas magicamente funcionam. E funcionam mesmo.
Já falei no passado sobre formação de custo de capital, temos o tópico Planilhas - Valuation. E vou trazer isso para cá em algumas postagens e também para abrir um tópico que discuta investimentos alternativos ou semi-investimentos, como queiram.
Vamos ver coisas absolutamente simples, mas que merecem atenção, pois valores corretos, empíricos e bem calibrados são a diferença neste quesito. Não é determinar que uma casa custou R$ 8.210/m2 na construção. Mas entender a diferença entre R$ 6.000 e R$ 8.000 e quando vale dizer R$ 8.500 por ser mais justo. Ou R$ 4.000 ou R$ 12.000. Enfim, cada negócio pode ter suas características e seu ciclo.
Nada disso é muito diferente do que levantar um balanço de determinação e o processo não é demorado uma vez que esteja planilhado.
Etapa 1: Coleta de dados e parâmetros de mercado:
- Dados físicos e dados macreconômicos
- Evidência empírica do R$/m² do terreno
- Evidência empírica do R$/m² da obra
Etapa 2: Apuração dos custos
- Custo do terreno
- Custo de reposição
- Depreciação, quando aplicável
- Custo da obra
Etapa 3: Modelagem financeira
- Base evolutiva
- WACC
- Capitalização por 615 dias (ou conforme nicho)
Etapa 4: Conclusão e validação
- Valor justo
- Comparação posterior com preços de barganha
A seguir…
