Outra reflexão córvica:
Tem coisas que, de tão óbvias, me dão até preguiça, mas vamos lá:
O empresário, se quiser comprar vacina, precisa doar 50% das doses ao governo.
“Ain, porque senão quem tem dinheiro passa na frente dos outros.”
Como consequência, o empresário malvadão chega à conclusão de que não vale a pena fazer isso, pois não conseguirá imunizar todos os seus funcionários, e acaba não comprando nada, e ficam sem vacina seus funcionários e a população que receberia os outros 50%.
Afinal, é melhor não vacinar ninguém do que permitir que quem pode bancar a vacina se vacine primeiro.
Corta para o Fantástico de ontem.
O ator Paulo Gustavo, salvo engano, está num tratamento que custa 30k por dia e mobiliza 6 pessoas 24h por dia só para cuidar dele.
Pelo que me consta, além de vacinas, faltam também pessoas pra dar atendimento, e esses 5 profissionais excedentes poderiam estar atendendo outros 5 pacientes.
Mas aí ninguém fala nada. Nesse caso, o capitalismo não é malvadão.
Será que vão editar uma lei pra obrigar a doar 50% dos profissionais ao governo?
As pessoas que comandam esta bagaça ou estão perdidas, ou são muito burras, ou são muito mal-intencionadas.
Um macaco no cockpit se sairia melhor.
PS: nada contra o ator em si. Se eu tivesse essa bala, faria a mesma coisa caso precisasse.
A única questão que eu colocaria é: falta dinheiro ou falta vacina? Se falta dinheiro, eu sou totalmente favorável à livre comercialização de vacinas, não só para as empresas vacinarem seus funcionários, mas também para clínicas vacinarem clientes no particular. Mas se faltam vacinas, essa privatização não resolveria problema nenhum, só desviaria as vacinas dos grupos de maior risco para os de maior bolso.
Há três pontos permeando o que eu disse e o que você comentou:
Primeiro: se faltam vacinas, também faltam profissionais, e entendo que ambos sejam igualmente importantes. Vacinas (supostamente) impedirão sua morte no futuro; profissionais, no presente. No entanto, mesmo faltando ambos, você pode “comprar” profissionais, mas não vacinas.
Segundo: se não há vacinas, mas há dinheiro, o estado absorveria o que há disponível, e de nada adiantaria os entes particulares estarem liberados para comprá-la. O que me leva a crer que, se não há vacinas, muito provavelmente também não há dinheiro para comprar o que existe.
Terceiro: discordo da premissa de que “desviaria dos de maior risco para os de maior bolso”. Se eu fosse empresário, no interesse de voltar a operar, vacinaria todos os meus funcionários, do porteiro ao presidente. E sabemos que há muito mais porteiros do que presidentes. Além disso, na premissa fica subentendido que no Estado isso não acontece, o que certamente não encontra eco na realidade. Políticos e bigatos públicos furam fila e vacinam parentes, e isso também desvia dos de maior risco para os de maior bolso.
Se vc fosse … o grupo de empresários patos de minas mostrou o contrário, selecionaram os amiguinhos e foram tomar soro fisiológico ![]()
Não pensaram nos operários, não.
Agora, sim, concordo que há muitas assimetrias. Questão de quem tem mais acesso a profissionais, vacinas … a questão da vacina vejo mais como uma falta de vacinas no mercado. Se colocar os particulares podendo comprar vai haver uma concorrência com o poder público pelas poucas vacinas que tem.
Então, eu vi uma certa crítica à hipocrisia da imprensa no seu comentário inicial, e concordo.
Mas vejo diferenças entre vacinas e profissionais, principalmente o fato de que o profissional pode escolher se trabalha aqui ou acolá. Eu acredito que faltando vacina e liberado o comércio, a velha lei de mercado iria inflacionar as vacinas, o que obviamente iria reduzir a vacinação pública. Havendo vacinas, quanto mais gente vacinada o quanto antes melhor, mas se há escassez, a ideia de vacinar os grupos com maior risco de morte primeiro me parece mais correta. Minha mãe de 87 anos diz que deveriam vacinar os jovens primeiro, porque os velhos já viveram muito. Eu já não concordo com esse pragmatismo todo. Mas penso que uma vez vacinados os 60+, saúde, comorbidades, aí a linha de frente (caixas de supermercado, por exemplo) deveria ser priorizada, se é que tal logística seria possível.
Não estou acompanhando, mas lembro ter lido que votariam como alternativa vacinar todos os parentes de primeiro grau. Seria uma boa. Mas há de se reconhecer que a última coisa que o congresso está pensando é na efetividade da medida, a repercussão pública vem bem antes. Como você falou, há escassez de vacinas mais do que de dinheiro. Isso poderia ajudar atendendo pequenas deficiências, porque o Estado está interessado em grandes negociações e pode haver oportunidade para compra de dezenas ou algumas centenas de milhares de vacinas que acabam escapando. Essa compra na unidade nem sei se teria relevância, consigo imaginar melhor grandes empresas ou até um consórcio de grandes empresas negociando. Isso é bom porque vacina quem trabalha, quem está mais exposto, e ajuda a reativar a economia mais rápido. Só um exemplo, BRF tem mais de 100 mil funcionários, se juntar Coteminas, bancos e mais um punhado, passa de 1 milhão facilmente.
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